Natal pode ser muita coisa, mas significa algo importante, acima de tudo e de todos: descanso.
(aka eu).
O pior é que a lista já estava feita há mais de um mês, a pedido de uma agência internacional de notícias, a
, para qual colaboro ocasionalmente.
Vou colocar os meus 20 filmes do século, mas só comentarei os dez finalistas. :)
9 - Sangue Negro
Os fãs de
Paul Thomas Anderson são mais chatos do que os de Caetano Veloso, mas é impossível negar que o diretor seja o mais talentoso de sua geração.
Se
Tarantino é o
Sex Pistols do cinema,
Paul Thomas Anderson é o
Pink Floyd.
Opostos que se atraem e complementam -
Tarantino é amigo de
PTA desde
Boogie Nights.
Tarantino é roteirista e autodidata.
PTA é extremamente técnico e pupilo de Robert Altman.
Em
Sangue Negro, Paul comanda o maior show de interpretação da década. Até mesmo o irritante
Paul Dano, que foi adotado pela crítica americana, entrega um belo retrato da corrupção embrionária em uma pequena comunidade do Texas.
Mas o picadeiro pertence a
Daniel Day-Lewis. Seu explorador de petróleo no início da corrida pelo "ouro negro" jorra maldade, transpira ganância e, ainda assim, produz empatia. Trabalho de um gênio com a coordenação de outro. Com milk-shake e tudo.
8 - Fale Com Ela
Nunca fui um fã ardoroso de
Pedro Almodóvar. O estilo histérico e colorido do diretor espanhol não me caia bem e parecia um verniz divertido para histórias de pouco conteúdo.
Mudei de ideia em meados dos anos 90, quando Almodóvar mandou três FILMAÇOS em sequência: o thriller
Carne Trêmula, o drama
Tudo Sobre Minha Mãe e o romance mais inusitado de todos os tempos:
Fale Com Ela.
O amor do enfermeiro pela bailarina que espia todos os dias da janela é algo tão tocante que seja a eclipsar quando ela entra em coma por causa de um acidente e ganha a proteção do seu admirador.
Almodóvar trata do tema com uma delicadeza ímpar e tenta explicar a pureza do amor na situação mais polêmica.
7 - Cidade de Deus
Brasileiro tem vergonha de ser pop. Ou melhor, não tem a capacidade de ser pop. Não confundir pop com popular, porque isso temos de sobra nas micaretas.
A definição de pop, neste caso, é aquela mais restrita, que brinca com temas locais de formas universais e é adotada pelo mundo - cuja linguagem pop é compreendida sem limites de fronteiras.
Cidade de Deus é o filme mais pop e importante do cinema brasileiro. Os críticos mais radicais podem se morder de raiva com isso, mas não adianta.
Qual outro filme nacional ganhou a lista de melhores da década de grandes publicações internacionais (
Total Film,
Empire), concorreu ao Oscar, ganhou muita grana no Brasil, revelou um cineasta moderno antenado e sem recalques intelectuais (apesar de ser muito inteligente) e entregou diálogos realistas como pouco vimos no cinema?
O longa de
Fernando Meirelles é uma obra-prima, um sopro de originalidade que pode até ter gerado filhotes bobinhos (
Cidade dos Homens) e aberrações (
Última Parada 174), mas é uma obra de referência, o nosso
Os Bons Companheiros.
6 - A trilogia Bourne
Virar um jogo com uma tradição de quase 50 anos não é missão para qualquer espião. Quando
A Identidade Bourne começou a tomar forma, ninguém deu muita trela. Apesar de ter um cineasta estiloso (
Doug Liman, do indie
Vamos Nessa!) e o livro de Robert Ludlum, filmes de espionagem não eram a peça mais cobiçada de Hollywood em 2002. O longa se tornou um sucesso inesperado, mostrou cenas de ação realistas e cruas e apresentou um novo astro de ação, Matt Damon.
No entanto, foi na dupla de produções seguintes que o jogo virou de vez. Sob o comando do diretor
Paul Greengrass (
Domingo Sangrento),
A Supremacia Bourne e O
Ultimato Bourne transformaram tudo que conhecíamos a respeito de filmes de espionagem em algo completamente diferente. Seu protagonista era perturbado pela falta de identidade, apaixonado por uma única mulher e capaz de matar uma pessoa de 13 maneiras diferentes.
Greengrass não seguiu sequer uma fórmula do manual dos longas de ação. Suas sequências de luta eram rápidas e violentas, suas tomadas eram baseadas em documentários, seus roteiros, extremamente complexos, principalmente no fim da trilogia, quando misturou continuidade em uma narrativa não menos que espetacular.
Não foi à toa que a franquia
James Bond começou tudo de novo com
Daniel Craig no elenco e mais do que um pé em
Bourne - vários técnicos de ação, de perseguição automobilística e de lutas da série foram chamados para
Cassino Royale e
Quantum of Solace.
5 - Corpo Fechado
O melhor filme de super-heróis da história não é baseado em quadrinhos. A ironia vem da cabeça de
M. Night Shyamalan, que enfrentou grandes problemas para vender o longa, que foi o primeiro depois do sucesso de
Corpo Fechado.
A
Disney vendeu a produção como um horror no estilo do anterior para tentar lucrar mais facilmente. Mas
Bruce Willis não vê nenhum morto e nem está morto nesta aventura enxutíssima.
Ele é um homem deslocado no próprio lar, deslocado em sua vida, em seu emprego. Até o dia em que o trem que o transportava descarrilha e ele sobrevive sem um arranhão. O filme, então, vai acompanhando as descobertas do personagem, que só encontra seu lugar no mundo com a descoberta de que possui poderes como um Super-Homem.
Um final incrível, uma mitologia realista (antes de virar moda) e personagens humanos antes de qualquer fantasia. Foi repudiado na época do lançamento. Hoje, é cultuado e Shyamalan não para de receber pedidos para uma continuação.
4 - Filhos da Esperança
Ok, futuros distópicos são cenários extremamente deliciosos.
Mas o resultado nem sempre é satisfatório - vide
Eu Sou a Lenda.
Não sei se o fato de ter visto o filme na Inglaterra, sem a pressão do trabalho, porque eram minhas férias, influenciou. Mas sai do Empire, na Leicester Square direto pra um pub.
Em Filhos da Esperança, Alfonso Cuarón recria a Grã-Bretanha em um futuro sem esperança, no qual as mulheres não podem mais engravidar e a pessoa mais jovem do mundo acaba de ser assassinada numa briga idiota.
"Em 50 anos, tudo estará acabado mesmo" era o lema desamparado do personagem principal, vivido por Clive Owen. É um funcionário público que, depois da morte do filho, só espera o tempo passar para caminhar para a cova.
Até que a ex-mulher (Julianne Moore) reaparece em sua vida para pedir uma ajuda: acompanhar uma mulher que está grávida para fora das fronteira bretã.
Ela é negra e as autoridades fascistas inglesas do futuro nunca permitiriam que uma ilegal se transformasse numa espécie de santa pós-moderna.
Se o jogo de câmeras de Cuarón não o deixar babando no chão (os 15 minutos "sem cortes" de um tiroteio em um campo de concentração de imigrantes são antológicos), a mitologia que critica(va) o governo Bush e seus muros, os efeitos especiais em favor da trama... Ficção científica da década.
3 - Quase Famosos

Menino pródigio do jornalismo cultural, Cameron Crowe já demonstrava que poderia se tornar um grande roteirista nos anos 80. Mas ninguém esperava que ele se tornasse também um diretor de primeira.
E a curva ascendente atingiu o ponto mais alto da maneira mais natual. Em
Quase Famosos, Crowe fez uma singela autobiografia generosa com seus personagens secundários. Obviamente, ele não foi idiota. Como um bom jornalista, sumiu entre seus objetos de estudo. Entre eles, um grupo de rock que virou o extremo cinematográfico do Led Zeppelin. E a grupie bela e inocente Penny Lane (a linda Kate Hudson em seu papel da vida).
Crowe captou a essência de uma era sem cinismo.
Quase Famosos é um tributo à paixão pela música, um roteiro sem falhas e um longa repleto de cenas sublimes - alguém consegue esquecer a cena do ônibus com "Tiny Dancer", de Elton John, a todo volume?
2 - Batman - O Cavaleiro das Trevas

Quando vi
O Cavaleiro das Trevas pela primeira vez no Imax do Howard Hughes Center, em Los Angeles, a reação era óbvia: "O melhor filme de quadrinhos da história não é um filme de quadrinhos".
Naquel primeira exibição para a imprensa do mundo inteiro, nunca pensei que fosse se transformar em um fenômeno.
É perturbador demais.
Longo demais.
Inteligente demais.
Sombrio demais.
Trágico demais.
Mas as circunstâncias falaram mais alto. A morte de Heath Ledger, sua interpretação icônica do Coringa, o roteiro sobre os limites da ética, a direção clean de Chris Nolan, o papel do vigilante Batman na sociedade, a pureza x a loucura, os papéis secundários complexos, as subtramas.
Comparações com
Operação França,
O Poderoso Chefão,
Fogo Contra Fogo...
Todas válidas.
1 - O Senhor dos Anéis
Não considero
O Senhor dos Anéis como três filmes. Ao contrário de
Star Wars e outras trilogias, ele foi concebido desde sua origem como um grande filme dividido em três.
Se não pegou os fãs de
Tolkien de surpresa, todos acostumados com uma obra rica em emoção e detalhes, pegou os velhinhos da Academia.
O Senhor dos Anéis quebrou o preconceito da Academia contra filmes de fantasia. Preconceito esse que nem
Star Wars quebrou.
Resultado de um trabalho de paixão pelo cinema, efeitos especiais inovadores, trabalho artesanal que foi utilizado para construir uma torre ou uma simples espada, uma direção focada nos atores e uma trilha sonora inesquecível.
Ter visto
O Senhor dos Anéis de perto, na Nova Zelândia, foi como ter assistido ao parto de um
Guerra nas Estrelas ou um
O Poderoso Chefão.
Quando poucos acreditavam, Peter Jackson mostrou que o cinema precisa correr certos riscos. Não são modinhas que determinam bilheterias, mas como uma obra é conduzida.
E
O Senhor dos Anéis faz rir, chorar, se segurar na cadeira, gritar e ter medo.
Uma obra perfeita de cinema.