domingo, 11 de outubro de 2009

Amores não suportam um bom disco...


"Você pode estar onde deseja estar?"

É uma pergunta simples, mas de resposta cruel e complicada.

Questionamentos que vêm à mente quando os dias se tornam mais arrastados, quando os ossos teimam em doer e as memórias de tempos diferentes, de infância, de adolescência, mostram o quão diferente você era ou se tornou – para pior ou melhor.

"O que você faz quando acorda se sentindo velho", perguntou Jeff Tweedy há mais de uma década.

Acho que foi a questão que bateu em Nick Hornby para começar a escrever Juliet, Naked, seu novo livro, lançados em inglês há duas semanas.

Hornby, uma espécie guru espiritual da geração dos anos 90 – que, por consequência, gerou filhotes fraquíssimos ao longo do caminho, mas isso não vem ao caso –, está se dando conta que está envelhecendo.

Sua crise de meia-idade foi em Slam, quando tentou recobrar sua juventude no corpo de um menino skatista que engravida a namorada. É seu livro anterior. Fraquíssimo. Podíamos quase vislumbrar o autor lutando contra palavras e contra clichês e contra ele mesmo para compreender uma juventude que bem possivelmente nem o conheça.

Quem conhece o escritor inglês sabe muito bem de sua veia autobiográfica. Não é preciso ser nenhum crítico literário para isso. Mas o estilo estava assombrando o autor. O medo de se auto-plagiar o levou a enveredar por caminhos perigosos (Como Ser Legal, que se perde no meio) e esquizofrênicos (Uma Longa Queda, cujos personagens mais interessantes possuiam ligações mais em comum com seu criador).

Esqueçam tudo isso. Juliet, Naked é a volta de Nick Hornby ao que ele faz melhor: personagens defeituosos em sua eterna adolescência, referências musiciais deliciosas e com propósito e inovações textuais que deixam a obra sendo a melhor coisa feita por ele desde Um Grande Garoto.

Olhando para trás, a expressão tão superlativa faz parecer que estou escrevendo sobre o retorno de Salinger 50 anos depois. Porra, Um Grande Garoto tem apenas 11 anos de vida. Alta Fidelidade completará 15 anos em 2010. Mas o tempo corre mais rápido para quem mexe com cultura pop na literatura. Não é fácil se manter atualizado, se manter cool, quando em dez anos tudo muda a sua volta.

Quando Alta Fidelidade saiu, não existia iPod. Rob Fleming (Gordon) é um ser em extinção. Sua loja de discos, uma triste lenda de antigas gerações. Amar cinco mulheres por toda a vida era coisa de titios. Ficar plantado na frente da janela da namorada parece caso de polícia quando hoje a ação máxima de amantes de corações partidos é "apagar do Facebook", "mudar o status no Orkut" e a mais drástica delas, "bloquear (E DELETAR) do MSN." Nem vou entrar no mérito das choradeiras e o celeiro de frases idiotas de efeito que viraram os nicks de MSN, porque quero voltar a falar do livro.

Juliet, Naked é Nick Hornby acordando para os novos tempos, mas tomando sua posição de direito como um grande escritor de 52 anos de idade. E, ironicamente, seu texto nunca esteve tão fresco e claro.

Isso não é para qualquer escritor. Por exemplo, no exato momento em que começei a escrever esse texto, coloquei o disco novo do Echo & The Bunnymen para tocar no computador. Difícil ouvir o grupo que não saia do toca-discos Pioneer dado pelo meu pai que acoplei num som vagabundo no quarto que dividia com meu irmão menor. Difícil porque The Fountain é vergonhoso. Assim como é vergonhoso o novo disco do Alice in Chains, de Chris Cornell e de 80% dos artistas que eu adorava na adolescência. Graças a Deus, nunca fui fã de Iron Maiden, Judas Priest e de metal melódico, senão o suicídio seria uma opção a enfrentar.

Talvez seja o que tenha levado Tucker Crowe para a aposentadoria mais cedo. Ele é o músico misterioso de Hornby, um gênio que passou despercedido, mas lançou um grande disco chamado Juliet. O álbum foi fruto do seu rompimento com a mulher que sempre amou, uma obra de arte que estrela todas as listas de "mais importantes da história". Mas, no meio de uma tour, Tucker desapareceu do planeta e ninguém sabe qual corpo sua alma atormentada foi assombrar.

(dica para o livro ficar melhor: imagine Jeff Buckley excursionando com Grace e troque sua morte no Mississipi por um sumiço no estilo Richey James Edwards, do Manic Street Preachers)

Corte para 2009. Um quarentão fanático por Tucker Crowe chamado Duncan arrasta sua mulher ("ou parceira", "ou namorada", "ou amiga", como ela pensa quando precisa explicar sua relação de 15 anos com Duncan) por uma viagem pelos Estados Unidos para passar por locais célebres relacionados ao roqueiro desaparecido. Quando os dois voltam para a Inglaterra, algo incrível acontece: eles recebem uma cópia do próximo disco de Crowe, batizado de Juliet, Naked – na verdade, versões demo da obra-prima.

O texto de Hornby se torna ainda mais poderoso a partir do momento em que ele começa a divagar como uma obra de arte pode afetar duas pessoas de maneira intensamente oposta e como ela se transforma na gota d´água que faltava para o fim da relação. Duncan se sentiu tão afetado com o álbum, que não aceitou 1) o fato de Annie ter ouvido antes dele e 2) ela ter odiado tanto algo que ele considerava uma obra-prima. Se Rob julgava suas paixões pelo que elas gostavam e não pelo que elas eram em Alta Fidelidade, o escritor muda o foco no novo livro.

Annie é a estrela da relação e do texto. Annie, apesar de não ser uma "Crowelogista", tem sua opinião formada e nota que o desprezo do parceiro por sua opinião mais ou menos reflete toda sua relação. Como ela mesmo descreve: "Eu sabia como isso terminaria assim que o conheci. Éramos dois carros em direções opostas. O que me deixou mais irritada é não ter caído fora antes."

Neste meio tempo, ela começa a se corresponder com o verdadeiro Tucker Crowe. Hornby se diverte como poucos ao desmistificar o roqueiro genial desaparecido. Ele transforma o músico numa criatura banal, velha de espírito, morta na ambição e repleto de defeitos – o maior deles em forma de filhos e filhas que nunca viu crescer. Em determinado momento, o escritor coloca Annie e Tucker em contato diário sem que Duncan – envolvido com outra mulher – sequer tenha ideia.

É uma ideia absurda demais imaginar que o maior fã veja o ídolo (um mulherengo ex-alcóolatra) valorizar a mulher que nunca soube amar por inteiro?

Não no mundo de Nick Hornby.

3 comentários:

mentirasbrancas disse...

Já tem data para sair a edição brasileira?

Salem disse...

Inda não. Mas duvido que saia antes do final do ano.

Jorge disse...

Otimo texto, só achei não achei o disco do alice tão ruim assim, pelo contrário, vou ficar na espera desse livro sair aqui no brasil.