quarta-feira, 1 de outubro de 2008

The Lonely One


Ser músico no Recife durante a febre do manguebeat não era tão fácil quanto transparecia a imprensa paulista. Todo Zé Ruela que tocava três acordes queria revolucionar a música nacional. Não passava um dia no jornal sem ser visitado por alguém querendo fazer um "Berimbau beat" ou "Forró funk" ou "frevo and bass". 99,99% desses visionários eram roqueiros frustrados querendo se aproveitar da moda de "fusão" e nenhum sobrevivia ao mercado – imagine, nem mesmo os grandes do manguebeat conseguiam.

A pancada era pior em quem curtia rock, tocava rock e não tava com intuitos picaretas na cabeça. Cantar em inglês era quase como estampar uma suástica nazista na Polônia de hoje. Tocar guitarras sem influências brazucas de Gil e coisas mais roots era sinônimo de lepra. Poucos bares abriam espaço para músicos com almas de Nashville ou Manchester. O pior é que iam contra toda a tese do manguebeat, de universalidade.

Bons artistas se perderam nessa perseguição idiota. Grupos se formaram e acabaram sem chances. Ótimos músicos não largaram seus empregos de verdade. Num desses empregos de verdade, trabalhei com o sujeito que lidera sozinho (ehehe) o Badminton. Guitarrista de mão cheia e dono de uma sensibilidade harmônica incomum, Felipe Vieira fazia há 15 anos o que Mallu(ca) Magalhães e Vanguart tentam fazer em suas pálidas representações de folk rock.

Nunca fui muito amigo de roqueiro ou outros músicos. Mas Felipe era jornalista. Entrou um pouco depois numa turma da pesada que mudou a cara do Diario de Pernambuco, jornal que era esbofeteado diariamente pelo concorrente e tomou corpo para equilibrar a luta. Quando me despedi das farras gigantes que começavam em Olinda, passavam pelo Empório Sertanejo e terminavam no Mercado da Madalena, o Badminton estava lá pra uma última noite regada a músicas barulhentas, baladas tristonhas, guitarras nervosas. Na despedida do Recife, a banda fez uma rara apresentação com direito a farofada "We Are The World" no final. Antológico e quem perdeu, perdeu.

Depois disso, o grupo de um homem só lançou um ótimo disco, agora finalmente substituído por II, que tem a presença de uma integrante extra, Maggie Stern. Felipe não é Thom Yorke. Está mais para Jeff Tweedy (Wilco) e se veste de vez em quando de J. Mascis. Mas mesmo assim está colocando o disco todo de graça na Internet como o Radiohead. Não é porque o cara é amigão. Mas o Badminton é coisa séria. Rola até falsete Dinosaur Jr. em "Let The Light In". O álbum é bonzão do começo ao fim. A ripada não é tão classe. Juntaram duas músicas em uma (a segunda é uma balada fantástica), os tags não estão perfeitos. Mas pura bobagem. Baixe isso, ouça com cuidado e peça pro chapa Lúcio fazer o mesmo hype que fez pra Mallu (ca). Folk rock é isso. Já está no meu iPod.

Querendo saber mais: visite a página do My Space da banda. Ou mande um e-mail!

BADMINTON - II


Update: as duas faixas iniciais são juntas mesmo. Eu que sou uma anta. Mas os tags precisam ser feitos na raça mesmo!

2 comentários:

erika disse...

Certa vez eu tava na faculdade conversando com Igor e ele me falou de Fé. Daí eu perguntei: quem eh esse cara qeu tu falas tanto? Ele falou: Fé é Deus. Muito depois eu descobri porque. O cara é foda mesmo.

Salem disse...

eheheheh... o Jeff Tweedy do agreste! Junto com Gomez, o J. Mascis nordestino... E o Missionario José, que é o... Missionário José.

bj