quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Coincidências


Não acredito em sinais. Não acho que existam “avisos” ou “alertas do destino” ou coisas que Paulo Coelho diz para vender um pouco mais. Você acha que se deu mal na prova? Notará que a TV só passa filmes sobre jovens que estão em recuperação no colégio. Está em depressão? Todas as músicas terão um significado parecido, explicando exatamente o que se passa em sua cabeça. Transou sem camisinha? Então, o assunto de todas as conversas parece ser sobre gravidez ou bebês. Normal. A antena de cada um de nós funciona como um rádio dessintonizado, preparada para a freqüência que o subconsciente deseja captar. Nem sei se podemos chamar de coincidências, pois tudo se move para que você encontre o que está procurando inconscientemente. Foi o que aconteceu comigo com o Afghan Whigs nestes dias.

"MOON RIVER", Cover pelo Afghan Whigs
Boomp3.com

Antes de mais nada, Afghan Whigs está no meu Top 5 rotativo de maiores bandas de todos os tempos. Sim, dependendo do momento, do clima e da vida, o shuffle da minha mente sempre está patinando em U2, Wilco, Dinosaur Jr., Afghan Whigs e Weezer (para um Top 10, coloque Pearl Jam, Nirvana, Los Hermanos, Faith No More e Beatles). Minha jukebox mental reentrou no mundo de Greg Dulli, talvez o vocalista mais negro que os genes brancos geraram em três décadas, quando quis procurar um EP raro para colocar de exemplo NESTE CONTO BOBO que escrevi. Vi que o primeiro show acústico do Dinosaur Jr, que encontrei na AMOEBA, de Los Angeles, há dois meses, não era tão raro assim. Lembrei de um single raro do Afghan Whigs que encontrei numa lojinha em Washington há dez anos. E como não estava com ele nas mãos, fui procurar o nome exato. Quando entro na maior fonte sobre AW e projetos paralelos de seus integrantes, o Summer Kiss, descubro que a série “33 1/3” dedicou um de seus livros para destrinchar a criação da obra-prima do grupo de Cincinnati que ousou misturar soul e punk em pleno domínio grunge (eles eram da Sub Pop também) nos anos 90: Gentlemen.


"WHAT A JAIL IS LIKE (AO VIVO)", Afghan Whigs
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A surpresa de encontrar a publicação é porque o Afghan Whigs nunca foi um grupo famoso... ou melhor, popular. Sei que tem fãs nobres. O editor-chefe da Q, melhor revista de música do planeta, quando dedicou um especial sobre “Os Melhores Shows da História” (ganhou o Coldplay no V Festival em 2003, com a presença desse que vos escreve), escreveu um editorial sobre a votação e disse que tudo era muito pessoal. Na sua lista, por exemplo, estaria um show do Afghan Whigs. Para um editor inglês (bairrista) admitir isso de um artista americano, é porque estamos diante de algo superior. Lembro que a Rolling Stone, na época do lançamento do Gentlemen estampou que o Afghan Whigs estava destinado a ser maior que os Stones. Além disso, várias trilhas sonoras enfileiraram os Whigs entre suas faixas (Brincando de Seduzir, com Natalie Portman ainda como ninfeta-razão-para-ser-preso; A Bruxa de Blair; Ela é Demais) e ainda enfileiram: No Sufoco, baseado na obra de Chuck Palahniuk, terá uma música do Twilight Singers, grupo atual do vocalista Greg Dulli.

"MY CURSE (AO VIVO)", Afghan Whigs (cantada pelo próprio Dulli)
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A coincidência, fora esse pequeno revival, é que fiz um texto há três anos sobre Gentlemen para o livro Noite Passada Um Disco Salvou Minha Vida. Escrever sobre um álbum desconhecido sem querer ser diferente (a intenção era ser verdadeiro mesmo) é mais ou menos como escutar uma música de um roqueiro morto sem fama e imaginar se alguém mais neste planeta está ouvindo a canção naquele momento. Ter a oportunidade de ler um livro inteiro sobre um disco que você guarda no coração, mas sabe que nunca estará na lista de “CDs que mudaram a música” é uma mistura de saudosismo, alegria, curiosidade e redenção. Meio emocionais para sua própria época (indo da canalhice à meiguice em segundos), os Whigs ainda fizeram dois discaços. Black Love, um disco conceitual pesadíssimo, lindo de se ouvir, mas complicadíssimo de se vender. Mais ou menos um encontro da Motown com Nick Cave. O ponto final na trajetória curta e brilhante do Afghan Whigs foi com outra obra-prima, 1965. Bem mais pop que o anterior, colocou a banda nos trilhos novamente com a química perfeita de soul para dançar até morrer e rock elegante, letras de fazer Jeff Tweedy ter enxaqueca por meses. Gravado em Nova Orleans, mescla vampiros sedutores, mulheres fatais, almas perdidas, ruas iluminadas por luxúria, dançarinas, suor, amor, sexo...

"NEGLEKTED (AO VIVO PELA ÚLTIMA VEZ) - Afghan Whigs
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Diferenças geográficas terminaram sendo a desculpa para o mundo deixar o Afghan Whigs para o passado. Dulli fez o Twilight Singers e o Gutter Twins (com Mark Lanegan, do Screaming Trees). Uma boa coletânea com duas novas músicas saiu ano passado e boatos sobre uma ressurreição foram levantados para o Festival Coachella. Não aconteceu. O Jesus and Mary Chain foi mais rápido. Mas tudo bem. O Afghan Whigs não é para retornar dos mortos. Seu som é tão jovial e sensual que não cairia bem com barrigas proeminentes e cabelos brancos. Afinal, eles nunca foram e nunca serão os Stones. Para o bem ou para o mal.

"Deep Hit Of Morning Sun (Primal Scream Cover)", Gutter Twins
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A coincidência pode ser comprada aqui.

Minha experiência com o Gentlemen poderá ser lida no Fora de Sintonia (ATUALIZADO COM O TEXTO ORIGINAL!!)

Uma pequena coletânea pessoal pode ser baixada aqui (soon).

A última vez que os Whigs pisaram no palco foi registrada e pode ser baixada aqui (thanx to MissMaceo).

E ouça as músicas ao longo do texto acima. Não vão se arrepender. E são meio raras.

2 comentários:

erika disse...

Sem comentarios sobre o Afghan Whigs.
O cara é cool até dizer chega e mata qualquer mulher só com o yeah mais sexy da face da terra, hehehehe.

Salem disse...

ehehehe... até eu admito que a voz do cara era foda... greg dulli eh reiz!